Partilhar é cuidar?

É provável que você já tenha ouvido falar de “Economia  da Partilha” (No Brasil utliza-se a expressão “Economia Compartilhada”. O termo tem sido utilizando com mais vigor depois do sucesso de empresas como a Airbnb ou a Uber que utilizam as tecnologias de comunicação para o seu desenvolvimento. Do ponto de vista conceitual a “Economia da Partilha” pode ser entendida como uma expressão utilizada para se referir a diversas formas de trocas facilitadas por plataformas digitais envolvendo uma grande diversidade de atividades que visam o lucro e outras com finalidade não-lucrativa geralmente valendo-se da ideia de dar acesso a recursos não utilizados através de um consumo colaborativo.

Vejamos o exemplo da hospedagem compartilhada. A empresa Airbnb foi criada em 2008 por três estudantes norte-americanos com o objetivo de aproveitar a procura de alojamento na cidade de São Francisco nos Estados Unidos durante um congresso de design. A cidade estava super lotada. Faltava alojamento para os congressistas. Brian Chesky e Joe Gebbia precisavam de dinheiro para pagar o aluguel da casa onde viviam e resolveram anunciar num blog de designers que estavam alugando um colchão de ar para os hóspedes dormirem na sua sala. Receberam respostas de três pessoas interessadas e a partir daí a empresa começou a crescer. Hoje ela é considerada um caso de sucesso. Através da plataforma permitiu que milhões de pessoas pudessem fazer o mesmo, oferecendo quartos e casas como espaços alternativos para turistas e viajantes.

O consumo colaborativo não é novo. Basta lembrarmos, por exemplo, do aluguel de roupas para eventos, dos mercados de escambo, do aluguel de carros ou daquela casa de praia que tanta gente aluga para levar a família e os amigos nas férias. O que diferencia o modelo de “Economia Compartilhada” que experimentamos hoje é a amplificação da escala de consumo facilitada pela utilização das tecnologias digitais como principal recurso. Junto a esse aumento, surgem também diversos debates políticos sobre os efeitos e as consequências deste tipo de economia quando ela passa a alimentar excessivamente um objetivo lucrativo, subvertendo o projeto de consumos sustentáveis e reforçando problemas sociais que renascem nas franjas destes negócios como a precariedade do trabalho, a gentrificação de cidades históricas e as desigualdades sociais que estas plataformas podem reforçar. Basta lembrar das polêmicas que a Uber e a Airbnb têm suscitado nos países em que estão presentes.

Não há dúvida que o modelo da “Economia Partilhada” tem servido como recurso de melhoria econômica tanto para quem oferece como para quem consome algum serviço. Ela também ressalta em si própria uma pegada ecológica considerando que um dos seus objetivos é diminuir o ciclo da apropriação particular de um bem ou de serviço, conduzindo este consumo para o conceito de acesso. Veja o caso do Zumpy, um aplicativo grátis criado no Brasil que promove caronas entre pessoas que estão próximas umas das outras e vão para destinos comuns. Ao invés de cada pessoa utilizar um carro para ir para o trabalho, através deste tipo de aplicativo, um/a motorista pode oferecer caronas solidárias com custos partilhados diminuindo assim não só a emissão de poluentes como também promovendo sociabilidades entre pessoas desconhecidas.

No entanto, não é possível deixar de lado a crítica que se deve fazer aos intermediadores destas relações. No seu estado microssocial, a “Economia Compartilhada” se consumava em escalas reduzidas. Com a entrada da Internet e das suas utopias planetárias, ou seja, de que as coisas se realizam agora em escalas globais, de modo horizontal e sem fronteiras, é certo admitir que a penetração deste tipo de modelo beneficia um número muito mais elevado se comparado aos modelos analógicos que vigoravam nos períodos que antecedem a explosão das tecnologias digitais. No entanto, esta expansão traz consigo desafios. É preciso refletir sobre os riscos que enfrentamos quando empresas como a Airbnb e a Uber orientadas exclusivamente para o lucro utilizam valores essenciais para a cidadania e a vida em sociedade como escudo protetor dos seus reais interesses.

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