É só um cabelo crespo

Mudanças radicais tive várias. Comecei a experimentar uma nova há 3 meses atrás quando decidi que meu cabelo crespo deveria crescer. Queria um cabelo maior do que aquele que me ensinaram ter: curto, quase raspado, quase “não-cabelo”.

Há tempos eu venho tentando fazer isso. Há tempos eu venho tentando me confrontar com alguns fantasmas identitários. Uma tentativa de não só entender o que é ser negro, mas de aceitar aquilo que tenho de negro em mim. E o cabelo é uma parte disso. Uma tentativa de rejeitar a categoria brasileira de pardo e de execrar o rótulo da linguagem colonial portuguesa que atribui aos negros de pele clara e cabelo encaracolado o etiqueta de “cabrito” (O cabelo crespo, por fazer pequenos caracóis e formarem pequenas bolas, lembra a merda do cabrito. No imaginário do oprimido, quem é que vai querer andar na rua com “merda” na cabeça. Ah pois é…melhor raspar).

Eu tentei. Bati um recorde contra essa opressão ao deixar esses caracóis livres por um pequeno período. Cresceu uns 4 centímetros e não foi fácil. Acostumado com um cabelo milimétrico, me olhar no espelho com uma bola de cabelo à volta da minha cabeça foi um exercício de aceitação diária. Eu encenava uma auto-aprovação. Aos amigos, que prontamente não só incentivavam, como também identificavam uma qualquer mudança ali na minha cabeça, eu justificava dizendo: é um ato político. E pensava: um cabelo crespo só pode crescer por este motivo? É preciso então justificar o crescimento de um cabelo socialmente considerado ruim, considerado merda?

Outra coisa que me chamou a atenção neste curto espaço de tempo foram as reações externas. O fato de avisar que iria tentar deixar o cabelo crescer foi um motivo de pequeno espanto. A estética dessa cabelinho crescido saltava às vistas daqueles tão acostumados a ver em mim uma cabeça polida, uma cabeça lisa, uma cabeça quase sem cabelo. A descoberta dos pequenos caracóis foi geral. “Está um estilo afro”. “ Está cabeludo”, “ Está a abraçar a raça”, “Deixa eu pegar”. “Fica bem esse corte em você”. Ouvi várias hashtags dessas.

Meu cabelo não cresceu tanto assim, mas já se notava algum volume. Aquela massa capilar me agradava, me irritava, me angustiava. Pensava na minha mãe em completa reprovação. “Isso é cabelo de malandro”, foi o que ela adiantou em mensagens do Whatsapp. Pensava em toda a teatralidade que deveria ter para justificar um cabelo crespo crescido.

Por que não se tratava apenas de deixar o cabelo livre. Tratava-se de não só entender todo o processo de rejeição do meu cabelo grande, mas também de justificá-lo. Alguma vez na vida os cabelos lisos, os cabelos grandes de gente branca suscitou tamanha dramatização? Duvido.

Parte da minha família é negra. Do ponto de vista capilar há um padrão que é seguido. Um padrão que responde à identidade do senso comum em ser negro no Brasil: Mulheres alisam o cabelo, homens raspam. Acho que o cabelo crespo alisado e o cabelo crespo raspado tem lugar na sociedade. Mas a mim incomoda pensar que nunca na vida pude dar uma chance ao meu cabelo crespo.

Na adolescência não deixei ele crescer como tantos amigos experimentaram. Não sei como reage ao vento. Não sei. São coisa banais. São coisas sobre cabelo. No entanto, são coisas que refletem o poder de uma opressão contra coisas que formam a identidade negra. Pensando assim, assumir um cabelo crespo, afro, encaracolado torna-se, antes de ser uma questão meramente estética, uma situação de luta no campo da micropolítica. Uma luta que questiona valores e padrões sociais. Uma luta travada para negar a merda do cabrito e aceitar a beleza que está na transição para a crespitude.

Nesse pequeno tempo de liberdade capilar, fui percebendo os meus automatismos relacionados ao controle do cabelo. Buscava uma forma, um penteado. Apertava os caracóis como se quisesse dominá-los, emoldurá-los. Usei cremes para diminuir o tímido volume. Sequei, amassei, tentei alisar. Nada me deixava confortável. No fim, resolvi deixar o Rodrigo voltar. Cortei.

“Mas quanto drama, é só um cabelo”, ouvi alguém lá da platéia resmungar. É verdade, nesse teatro todo trata-se apenas de um cabelo, um cabelo reprimido que nunca na sua existência cresceu mais que alguns milímetros. Cortei sim. Mas cortei com uma consciência nova. Uma consciência que, embora esteja ainda dominada por valores que rejeito, sabe que um cabelo cortado não pode interromper a reconstrução de minha negritude.

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