Livres e vigiados

004-jean-michel-basquiat-theredlist

Liberdade é uma palavra estranha que só pode existir a partir da ideia de controle. Fora do controle, a liberdade é má, feia e perigosa.

Embora a vigilância massiva esteja mais evidente com as novas tecnologias de informação através do armazenamento dos nossos rastros digitais, do ponto de vista simbólico o controle, a regulação e a fiscalização fazem parte de um sistema precedente que nos constitui enquanto sociedade. Esse modo de funcionamento do nosso cotidiano replica-se, quase de modo natural, para a nossa (pelo menos para a minha) rotina individual. Todo pensamento mal, todo desejo lascivo, toda ideia exagerada, todo ato descomedido deverá ser julgado.

É nesse sentido que a ideia de liberdade só pode existir dentro dos parâmetros autorizados por um  sistema de julgamento moral que integra tanto o corpo social externo à nossa vida, como também à nossa formação psicológica. Podemos chamá-lo de “lei”.

Quando Dostoiévski escreveu “Crime e Castigo” estava a questionar o impacto da verdadeira autonomia na vida de um ser humano que, por sua vontade independente, pode decidir até assassinar uma pessoa. O drama de Raskolnikov não estava preso às agruras e dificuldades de uma vida sem recursos financeiros. Ao decidir matar, assumiu a integridade da palavra “liberdade”. A questão de Dostoiévski é refletir sobre a palavra “autonomia”, admitindo que ela implica, entre outras coisas, afirmar: “eu posso fazer o que quiser, inclusive matar”. Tal admissão é conflituante. Trata-se de uma decisão extrema, perigosa e feia.

E por que a autonomia e a liberdade são assim: criamos métodos de controle da nossa aptidão para gerir nossa própria vida, moderação sobre os nossos impulsos de autogovernação. Daí nasce também os mitos científicos entre civilização e selvageria. A primeira é organizada por sistemas de controle e vigilância 24/7. A segunda orientada por ausência completa de privações.  A dicotomia entre os dois mitos fundamenta a ideia de “auto-controle” que se difere de autogovernação. Ideia esta representativa de modelos utópicos de existência: equilíbrio, organização, vida saudável, harmonia. Nos casos em que estes modelos são corrompidos, o sistema social utiliza recursos morais e físicos para mantê-lo em bom funcionamento. A culpa, o pecado, a prisão, a repressão, o autoflagelamento e o código penal são exemplos simbólicos dos mecanismos de controle da liberdade e das moralidades independentes. Somos juízes dos outros e de nós mesmos. Precisamos disso, acredite.

Assim, posso admitir que a liberdade só existe no campo imaginário da vida, sendo impossível atingí-la na sua plenitude. Não há civilização que resista à sua essência. Quão perigoso seria admitir que a decisão de Raskolnikov legitima a concretude da autonomia do ser humano? Legitima a afirmação da individualidade como realização final de uma sociedade tecnológica em ascensão. Quanta desilusão será necessária para aceitar que é definitivo a impossibilidade de experimentar a liberdade com liberdade? Resta, portanto, conceber a liberdade como uma quimera apocalíptica. Uma fantasia que só pode existir de modo contraditório: com controles, limites, vigilâncias. E assim, pode tornar-ser menos deficiente perceber como a sociedade da vigilância que hoje experimentamos com maior clareza, reverbera vontades pessoais e sociais de manutenção e validação de uma civilização pop-utópica. Talvez seja por acreditar neste sonho que muita gente admita que, em nome da segurança, vigiar de todos os lados, seja o melhor caminho para garantir a vida.

 

Imagem: Jean-Michel Basquiat, Untitled.

You may also like