Negócios motivados pelo preconceito na Economia da Partilha

 

Em um outro texto postado aqui no blog, fiz uma lista de estudos que mostravam como existe discriminação negativa no mercado. No negócio da “Economia da Partilha”, criado a partir de uma utopia pronta, são vários os casos em que pessoas negras, homossexuais e mulheres passaram por algum constrangimento (físico e psicológico) ao tentarem utilizar os serviços prestados por pessoas através das plataformas digitais desta economia.

Considerando que toda opressão estrutural acaba por gerar um movimento de agência e de resistência, no mercado da Economia da Partilha foram criadas iniciativas com o objetivo de aliviar tais constrangimentos, tornando-se uma oportunidade de negócio direcionado para os públicos que ainda sofrem com o racismo, a homofobia e a misoginia.

Stefan Grant — Fundador & CEO da Noirbnb

No ramo dos alojamentos, Stefan Grant criou a Noirbnb. A ideia de um site de alojamento para pessoas negras surgiu depois que Stefan e alguns amigos utilizaram a Airbnb para se hospedar em Atlanta (EUA) em 2015. Como conta Stefan neste post, quando os vizinhos viram um grupo de negros hospedados no prédio assumiram que se tratava de um grupo de ladrões. Esta situação foi o ponto de partida para a criação de um projeto de alojamento exclusivo para pessoas negras de todo mundo. Uma plataforma que oferecesse alojamentos de forma segura para os viajantes negros.

O MisterB&B também seguiu uma lógica parecida com a do Noirbnb. Quando Mathieu Jost, confundador da plataforma, reservou um apartamento partilhado em Barcelona com seu companheiro, sentiu que a anfitriã não se sentiu confortável com a presença de dois homens gays hospedados na sua casa. Como conta Mathieu, ela até chegou a perguntar se os dois domiriam na mesma casa. Tadinha..

Desta má experiência, Mathieu criou uma plataforma de alojamento a curto prazo para homens gays a fim de melhor a experiência destes viajantes, tornando-a mais segura e mais confortável. A ideia também era a de fortalecer o sentido de “comunidade gay” dando oportunidades a anfitriões gays de alurgarem o seu espaço para outros gays.

No ramo da mobilidade urbana a Blablacar criou uma modalidade de viagens entre mulheres a fim de criar espaços seguros. Não são poucos os casos, por exemplo, de mulheres que são vítimas de abuso sexual em viagens da Uber (leia esta notícia do Jornal Público).

A modalidade de viagens chamada pela Blablacar de “Apenas Mulheres” permite aos membros planejar uma viagem onde tanto o condutora como as passageiras são mulheres. Segundo a empresa: “É uma ótima forma de fazer com que as mulheres se sintam ainda mais seguras (…) e é especialmente útil quando é a primeira vez que os nossos membros femininos partilham uma viagem na comunidade BlaBlaCar”.

Se estas iniciativas resolvem o problema do preconceito, da discriminação negativo e dos abusos sexuais? Óbvio que não. No entanto, demonstram que estas situações motivam as vítimas e as próprias empresas a estabelecerem alternativas e medidas que permitam a estas pessoas participarem de modo seguro nas dinâmicas desta economia. Estas iniciativas não só reafirmam sérios problemas que devemos combater no nosso dia-a-dia, como também exibem como situações negativas podem tornar-se motivos para a criação de novos nichos de negócios*.

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Sobre a utilização das lutas políticas como estratégia de marketing para promoção de produtos, pessoas, países ou entidades leia, por exemplo, sobre o conceito de “pinkwashing”. 

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