Projeto de Pós-doutoramento

A Internet e a Economia da Partilha em Portugal: Novos modos de vida em tempos de capitalismo digital

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Projeto de Pós-doutoramento financiado através de bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, referência: SFRH/BPD/115125/2016

Início: 01/09/2017

Instituição Acolhedora: Centro de Estudos da Comunicação e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho

Supervisão: Helena Sousa

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Resumo

Este projeto visa compreender as mudanças sociais introduzidas pela chamada “economia da partilha”, com particular atenção às formas de utilização da internet na reorganização e reestruturação do consumo, de modelos de negócio e dos modos de vida.

A análise terá foco nos sujeitos que partilham alojamentos e boleias em Portugal através da mediação das plataformas digitais Airbnb e Blablacar respectivamente.

A questão principal é compreender como o difusionismo tecnológico e as TIC têm impactado nos modos de vida destes atores, o que significa descobrir até que ponto o uso das plataformas digitais e as lógicas de colaboração tem fortalecido e/ou debilitado a autonomia destes sujeitos no contexto do capitalismo digital.

Metodologicamente, a pesquisa seguirá protocolos de natureza qualitativa a partir de estudos de caso, com análise de conteúdo dos perfis digitais de anfitriões e de condutores inscritos nas plataformas Airbnb e Blablacar, seguida da realização de entrevistas junto de uma amostra selecionada desses atores sociais.

Estado da Arte 

Nos últimos anos, a economia da partilha tem adquirido uma importante expressão depois da emergência de práticas de produção e de consumo colaborativo permitidas pelas novas  tecnologias da informação e comunicação (TIC), em particular a internet (Benkler, 2006; Castells, 2009; Kostakis & Bauwens, 2014). Alguns estudos reportam os benefícios que as TIC têm proporcionado na criação de novos modelos de negócio motivados por lógicas de colaboratividade, solidariedade e sustentabilidade, no empoderamento dos utilizadores e na realização de um projeto comunitário de consumo autónomo à escala global (Botsman & Rogers, 2010; Rifkin, 2014).

A emergência de plataformas digitais que operam baseadas na axiologia da partilha de bens (materiais e informacionais) e serviços através da internet, como Airbnb, Couchsurfing, Uber, Blablacar, Wikipedia, Facebook, Google (John, 2013) e inúmeras outras, parece sustentar-se a partir de uma reflexividade fundamentada em valores  sociais (bem-estar social, autonomia, confiança, sustentabilidade, progresso económico e relações horizontais) procedentes de utopias tecnológicas sobre a rede antecessoras à sua existência (Musso, 1999; Garcia, 2010; Breton, 1994).

Apesar de existir uma lacuna nos estudos que qualifiquem e quantifiquem a economia da partilha em Portugal, sabe-se que empresas digitais como Airbnb e Blablacar somam juntas, a nível mundial, o valor de capital de risco em torno dos 2,8 biliões de dólares (Sundararajan, 2016). A título de exemplo, um recente relatório da Airbnb aponta a existência de 15 mil anfitriões a utilizarem a plataforma como mediadora da partilha ocasional de alojamentos. Em termos de impacto financeiro, o relatório destaca que em 2015 o Airbnb gerou um total de €268 milhões em atividade económica apenas em Lisboa, sendo €42 milhões recebidos pelos anfitriões (Airbnb, 2016).

Embora o cenário da economia da partilha seja frequentemente celebrado como alternativa aos contextos de austeridade, é importante destacar que um dos possíveis riscos associados a tais tendências é a criação de monopólios digitais de consumo. Ao se aproveitarem dos valores anti ou alter-capitalistas associados às TIC, podem, por exemplo,  rentabilizar a participação dos utilizadores integrando as relações sociais a uma lógica exclusivamente mercantilista, excluindo o surgimento de outras iniciativas.

Sobre esta questão, recentes abordagens analíticas no campo da economia política da internet têm chamado a atenção sobre o papel das TIC na preservação destes monopólios (Schiller, 2007; Wasko, Janet, Graham Murdock e Sousa, 2011; Saturnino, 2016) que, na possibilidade dessa centralização, pode acabar transformar o estatuto do utilizador num mero trabalhador informal monetizado, precarizado e regido pela regulação da própria plataforma (Braga & Antunes, 2009; Trebor, 2013, Fuchs, 2014).

Este projeto terá como principal contributo a compreensão do papel político e social das TIC no âmbito da economia da partilha a nível nacional, suprindo uma lacuna existente nos Estudos da Comunicação em Portugal. Ao lançarmos o olhar sobre as práticas e os modos de vida dos atores que partilham bens e serviços através do Airbnb e Blablacar (quartos e carros, respetivamente), será possível conhecer como tais sujeitos jogam com as dinâmicas que regem o capitalismo digital (Schiller, 2007) e até que ponto as motivações e expectativas sociais dos utilizadores destas tecnologias se conjugam entre a devoção à lógica da partilha e a necessidade de torná-la numa via alternativa para a sua própria existência.

Objetivos

Compreender os contextos objetivos e subjetivos dos modos de vida das pessoas que participam da economia da partilha através das plataformas digitais Airbnb e Blablacar. O contexto objetivo refere-se aos percursos de vida e à mobilização de recursos destes sujeitos para acederem a estes serviços; o contexto subjetivo, ao quadro simbólico (expectativas, aspirações e valores de trabalho) subjacente ao papel da tecnologia e da economia da partilha na configuração das próprias vidas.

Para atingir estes objetivos, o desenho do projeto articulará três dimensões analíticas:

Reflexividade tecnológica: como as TIC estabeleceram um projeto social com dimensões mundiais de organização da sociedade em que utopias comunitárias se tornaram fundamentos da economia da partilha e até que ponto tal reflexividade se incorpora no quotidiano dos sujeitos que utilizam as plataformas supracitadas.

Capitalismo digital e regulação: que desafios se apresentam ao enquadramento normativo a nível nacional nas relações que se estabelecem entre utilizadores e gestores das plataformas digitais; como a regulação tem tentado estabelecer relações de equidade entre estes atores; até que ponto as plataformas digitais assumem responsabilidades legais   com os seus utilizadores.

Valores sociais: como os utilizadores constituem identidades baseadas na supervalorização de valores morais como a reputação virtual on-line, a confiança e a privacidade; como se estabelecem os limites da mercadorização destes e outros valores; até que ponto a partilha é absorvida nos modos de vida dos utilizadores em termos de devoção a uma lógica de sustentabilidade e uma oportunidade de subsistência financeira nos contextos de austeridade.

Descrição detalhada

O objeto de estudo proposto para este projeto de pós-doutoramento tem por pano de fundo quatro tendências constitutivas da economia da partilha nas sociedades contemporâneas. A primeira refere-se à digitalização de conteúdos no universo comunicacional instituído pela web como espaço ativo de partilha desde os anos de 1990 (John, 2013; Zallo, 2011). A segunda é marcada pela recente ascensão de plataformas digitais com o objetivo de promover novas formas de produção e consumo de bens e serviços. A terceira tendência expressa-se no alargamento do conceito de partilha na composição das empresas baseadas no digital. Por fim, a última evidencia-se nas implicações das anteriores tendências na mutação de importantes conceitos-chave do capitalismo digital, como trabalho, propriedade e autonomia no contexto de austeridade económica.

De facto, a economia da partilha tem reacendido as promessas de uma sociedade economicamente sustentável. Os números crescentes, a nível mundial, revelam que a internet tornou-se num meio de comunicação fundamental para a formação de novos modelos de negócio caracterizados por relações horizontais e o acesso alargado a bens de consumo, incluindo os negócios oferecidos por empresas no ramo do turismo, do trabalho colaborativo e dos bens informacionais. Áreas que se valem do imaginário reticular proporcionado pelo difusionismo das tecnologias baseadas na ideia de rede como recurso fundamental para fomentar as relações que se travam no interior destes modelos (Musso, 1999; Flichy, 2008; Saturnino, 2016). No entanto, a rapidez de absorção do mercado capitalista de tais práticas têm transformado a alternativa em negócio de indústrias capitalistas, colocando em debate os limites da colonização empresarial do modo de produção colaborativa dos atores que partilham.

A principal hipótese desta pesquisa é que a escolha dos sujeitos que utilizam tais plataformas digitais para a partilha de bens e serviços é uma estratégia de superação de constrangimentos imputados por contextos de austeridade. Pode-se pensar que tais sujeitos apropriam-se da aura da colaboratividade e das funcionalidades oferecidas pelas plataformas digitais (em estabelecer a mediação entre os pares) como mais-valia para a consecução dos seus objetivos pessoais. No entanto, tal estratégia pode implicar certas concessões da parte do utilizador de tais plataformas digitais. Nos nossos estudos de caso, anfitriões e condutores, habilitam-se a contribuir com a manutenção de monopólios digitais que, por sua vez, podem explorar as desigualdades sociais e a precariedade como condição de vida.

Neste sentido, capturar os modos de existência no capitalismo digital a partir da perspetiva da produção de identidades baseadas na economia da partilha, permite alargar a compreensão do papel das TIC nos contextos de austeridade económica onde a internet não só é considerada como elemento fundamental na constituição de novos modelos de negócio e oportuna para a emancipação social, mas também como instrumento de afirmação de monopólios apoiada por condições que estruturam a precariedade laboral.

Ao olhar para as novas formas de existência social em contextos de crise, não apenas como um modelo temporário de existir apenas num momento de instabilidade económica na vida do sujeito, será possível interligar importantes tradições no campo das identidades sociais em que a tecnologia, o trabalho, o consumo e a economia fundamentam a busca por afirmação de uma condição de vida que passa da alternativa para uma nova forma de existência social.

Embora o contexto de crise pressuponha, nomeadamente entre os indivíduos em situação de desemprego ou de precariedade, a busca por recursos alternativos de vida diante dos quadros insatisfatórios de oferta de trabalho, tais atividades podem partir de uma experiência temporária em momentos de emergência financeira. Estes indivíduos utilizam o recurso mais à mão para se ter acesso ao consumo ou para manter-se com recursos para continuar a consumir (alugar a casa, partilhar o espaço de trabalho ou descarregar ficheiros através da internet) que podem se transformar em prática profissional e fontes regulares de consumo, de acesso e de lucro.

Esta condição não se aplica apenas e exclusivamente ao sujeito em estado de precariedade ou em situações emergenciais de desemprego. Ela também se estende, aproveitando-se do seu valor social enquanto prática socialmente aceitável, a indivíduos que, se por lucro ou por generosidade, se envolvem nestas atividades a fim de expressar as ideologias que a política da partilha solicita.

Metodologia

A investigação será baseada em protocolos de natureza qualitativa: numa primeira fase, começará por ser estrategicamente orientado pelos chamados Online Research Methods (ORMs), nomeadamente a etnografia virtual, seguindo as sugestões de Hine (2004), seguindo o rastro digital dos sujeitos em pesquisa nas plataformas em análise. Numa segunda fase, a palavra e a experiência dos sujeitos ocuparão uma posição privilegiada através de entrevistas em profundidade a uma amostra destes sujeitos, criteriosamente selecionados segundo critérios de diferenciação evidenciados pela anterior análise dos perfis digitais. Colocar-nos-emos  numa perspetiva de escuta ativa em relação aos atores envolvidos nos processos de ganhar a vida, articulando suas subjetividades e trajetórias biográficas com as condicionantes e oportunidades objetivas que fundamentam estas dinâmicas.

Para cada uma das duas atividades em análise, a estratégia metodológica seguirá a seguinte ordem: a) análise de conteúdo dos perfis digitais do anfitriões e condutores nas plataformas Airbnb e Blablacar; b) seleção de diferentes perfis de anfitriões e condutores a entrevistar; c) realização de cerca de 30 entrevistas compreensivas individuais com os sujeitos selecionados (15 para cada atividade); d) análise e tratamento dos dados produzidos através do software de análise qualitativa Maxqda, o que proporcionará à pesquisa não só economia de tempo e de custos, mas também maior rigor metodológico na organização dos dados.

Para ter acesso aos perfis digitais, o investigador utilizará um perfil próprio como utilizador das plataformas. Os posteriores contatos com os potenciais entrevistados serão realizados a partir das plataformas, identificando-se o investigador enquanto tal e mostrando claramente os objetivos do estudo, por forma a obter o consentimento informado para posteriores entrevistas.

A multiplicidade dos métodos e técnicas de análise a serem utilizadas na investigação obedecerá a uma estratégia de triangulação (Flick 2007), uma metáfora conceptual (re)conhecida no campo dos Mixed Methods Research, que implica a combinação de diferentes métodos com o objetivo de favorecer uma análise mais abrangente da complexidade do objeto relativamente àquelas que se restringem a validar as suas hipóteses apenas por um bloco monometodológico.

Referências bibliográficas

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