O que é a Sociologia Digital

Sociologia Digital – Parte 1: O que é isso?
Deborah Lupton

O que é a Sociologia Digital? Por que o termo não é comum, quando as expressões “antropologia digital”, “culturas digitais” e “humanidades digitais” têm sido utilizadas há alguns anos? Ainda não encontrei nenhum livro que use “sociologia digital” como título (há, é claro, vários livros que se concentram em diversos aspectos do mundo digital a partir de uma perspectiva sociológica sem usar este termo). O único curso que eu descobri até agora que utiliza a “sociologia digital” é um mestrado na Goldsmiths, University of London. Há ainda a terminologia “ciências sociais digitais”, aplicada de modo bastante limitada para se referir ao uso de métodos quantitativos («Webmetrics ») na análise de dados digitais.

Embora a “Sociologia Digital” não esteja ainda em uso regular, sociólogos têm se envolvido com a investigação relacionada com a internet desde que ela foi criada. Em suas pesquisas, muitas questões sociais relacionadas às comunidades on-line, ao ciberespaço e a ciber-identidades são abordadas. Tal tipo de investigação tem contraído diferentes designações, como: “cibersociologia”, “a sociologia da internet”, “a sociologia das comunidades on-line“, “a sociologia das mídias sociais”, “a sociologia da cibercultura” ou outra coisa qualquer. Apesar do termo “ciber” ter estado em voga durante a década de 1990 e início da década de 2000, a referência ao prefixo “ciber” parece ter sido substituída pelo “digital” , principalmente porque a internet tem se tornado mais difundida, nomeadamente a partir do uso cada vez mais intenso de dispositivos móveis que podem ser transportados para vários locais, permitindo que o utilizador esteja constantemente conectado à rede. A Sociologia Digital encapsula as preocupações anteriormente abordadas pela “cibersociologia”‘ e se estende para esta nova era de uso do computador móvel digital. Assim, ela é um termo descritivo que também serve para fazer referência a outras disciplinas e o uso que fazem do termo “digital”.

Apesar de constatarmos a existência de estudos voltados para o digital, tem-se argumentado que, em geral, os sociólogos apresentam-se lentos para assumir uma pesquisa que envolva mídias sociais e lentos, também, para se envolver pessoalmente com tais mídias a partir de uma prática profissional que utilize, por exemplo, blogs e o Twitter (Daniels e Feagin de 2011 ; ver também o meu post anterior) “Onde estão todos os blogs de sociologia? “.

A sociologia das tecnologias digitais/sociologia digital ou qualquer termo adotado deve certamente começar a se expandir como uma sub-disciplina da sociologia, dada a crescente prevalência das tecnologias digitais. Elas estão se tornando uma parte cada vez mais integrante do quotidiano de muitas pessoas no mundo. Pré-escolas e creches estão agora a começar a anunciar que eles oferecem tablets como parte de suas instalações. No outro extremo da vida, Wiis são utilizados para dar apoio a mobilidade de moradores que vivem em instalações de cuidados a idosos e dispositivos de mídia social tem sido introduzidos para que as pessoas mais velhas sejam incentivadas a se envolverem em relações sociais a partir de casa. A Sociologia Digital pode oferecer recursos para que o impacto, o desenvolvimento e a utilização destas tecnologias e seu impacto e a sua incorporação nos mundos sociais e nos conceitos de individualidade possam ser investigados, analisados ​​e compreendidos.

Parece-me que, dadas as maneiras em que as tecnologias digitais se infiltraram na vida quotidiana, tornando-se em uma dimensão importante de como as pessoas reúnem informações e se conectam socialmente entre si, o mundo digital deve ser agora uma característica central do estudo e da pesquisa sociológica. Os sociólogos não só devem aprender a usar os meios digitais para fins profissionais, como também devem realizar pesquisas que são capazes de explorar o impacto destes meios na vida quotidiana a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva. Alguns sociólogos começaram a fazer isso: por exemplo Gehl (2011) ao pesquisar sobre a representação e a auto-gestão do profissional on-line e Burrows (2012) que trabalhou sobre a forma como as métricas de desempenho têm impactado a prática acadêmica e a individualidade.

Para resumir, as principais atividades em que os sociólogos digitais podem se envolver são:

– Prática profissional digital: o uso de ferramentas digitais para fins profissionais: construir redes de relacionamento para divulgar e partilhar pesquisas e instruir os estudantes;

– Análises sociológicas da utilização do digital: pesquisar as implicações dos meios digitais na configuração e na concretização de identidades e de relações sociais; 

– Análise de dados digitais para a investigação social, tanto no âmbito quantitativo como no qualitativo;

– Sociologia digital crítica: realizar análises reflexivas e críticas sobre a mídia digital apoiadas pela teoria social e cultural.

____________

Este blog é uma versão editada da minha apresentação no Storify “Digital Sociology”, que inclui mais detalhes e muitas ligações para cursos, livros, artigos e posts, bem como uma lista de outros recursos (isto pode ser visto aqui).

Referências:

Burrows, R. (2012) Living with the h-index? Metric assemblages in the contemporary academy. The Sociological Review, 60(2), 355—72.

Daniels, J. and Feagin, J. (2011) The (coming) social media revolution in the academy. Fast Capitalism, 8(2), Disponível aqui.

Gehl, R. (2011) Ladders, samurai and blue collars: personal branding in Web 2.0. First Monday, 16(9), Disponível aqui.

 

Tradução livre feita a partir do texto de Deborah Lupton.